Especialista vê “miopia” em previsão de afluências do ONS

Conforme apontei em uma matéria anterior, parece ser muito cedo para o ONS desativar as Termoelétricas a gás natural, sem certeza de como será o regime de chuvas, no período que vai de hoje até o próximo período seco de 2022. Os reservatórios da UHE continuam em uma nivel muito baixo, no caso da região Sudeste/Centro-Oeste em apenas 18.8% ( dia 18/11). Esta opinião é respaldada agora por um especialista no assunto, Márcio Cataldi, meteorologista , professor da UFF e ex-integrante do corpo técnico do ONS. Ele diz “a ONS toma por base padrão meteorológico que prevaleceu em outubro, sem atentar para sinais de que será diferente em novembro/dezembro com a chegada de La Niña.”

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Em avaliação sobre as perspectivas das afluências de agora em diante, especialmente para o período úmido que começa no dia 01/12, o meteorologista Márcio Cataldi, professor da UFF e ex-integrante do corpo técnico do ONS, considerou “um pouco míope” a nota divulgada no começo da semana pelo operador do SIN. Nela, o órgão justifica a sua iniciativa de propor ao Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) o desligamento de parte das térmicas despachadas por segurança energética, o que já está sendo posto em prática.

“É um pouco míope no sentido do entendimento do fenômeno” disse Cataldi ao comentar a análise do operador segundo a qual “o período úmido 2021/2022 vem se estabelecendo sem atraso”. Na avaliação do pesquisador da UFF, o ONS está tomando por base o padrão meteorológico que prevaleceu em outubro, sem atentar para os sinais de que ele será diferente em novembro/dezembro com a chegada de La Niña, já constatada oficialmente por órgãos internacionais como a norte-americana NOAA.

Cataldi disse que as chuvas que caíram na bacia do rio Grande em outubro, provocando uma significativa recuperação do reservatório de Furnas – saiu da casa dos 13% para a dos 21%-, estava mais ou menos prevista, mas as que ocorreram no Paraná, próximo ao reservatório de Itaipu, foram causadas por um fenômeno meteorológico complexo conhecido como jato.

Esse fenômeno, segundo o pesquisador, se intensificou, criando o que os meteorologistas chamam de “convectivos de meso escala”, o que provocou chuvas de 200 mm acima da média. Segundo Cataldi, o esfriamento das águas do Pacífico, que caracteriza La Niña, não estava configurado no mês passado, fazendo de outubro um mês atípico, não só na América Latina, mas na totalidade dos dois hemisférios.

O meteorologista disse que La Niña já começa a exercer sua influência no regime de chuvas no Brasil, caracterizada por poucas chuvas no Sul e Sudeste e muitas no Norte e Nordeste, principalmente nas bacias dos rios Tocantins e São Francisco. É o que as próprias estatísticas do ONS vêm mostrando, com aumento das afluências em Tucuruí e até em Belo Monte, no Xingu, permitindo o aumento da geração nestas duas usinas.

Esse padrão, de acordo com Cataldi, deve prevalecer até dezembro, período que ele considera o limite de confiabilidade das previsões. Neste período, já em vigência, a tendência é que os reservatórios do Sul percam armazenamento, os do Sudeste/Centro-Oeste (SE/CO) fiquem estacionados ou até percam um pouco e de volume e os do Norte e Nordeste subam.

De acordo com os dados do ONS, na quarta-feira (17/11), o armazenamento no Sul estava em 54,20%, no SE/CO, em 18,79%, no Nordeste, em 36,03% e no Norte, em 38,22%.

A temática da situação hídrica do país e das previsões para o período úmido que se avizinha será tratada nesta sexta-feira, 19, no V Workshop de Modelagem Climática da UFF (MODCLIM 5.0), evento que será realizado em ambiente remoto. Está prevista a apresentação de estudos realizados pelo ONS.

Créditos: Energia Hoje

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