China pode ter chegado ao pico de emissões de CO2 na energia, diz CarbonBrief.

Foto por Marek Piwnicki em Pexels.com

Análise do Carbon Brief publicada na quinta (8/8) enxerga a China, maior emissora global de gases de efeito estufa, em uma trajetória para reduzir seu impacto climático este ano.
 
No segundo trimestre de 2024, as emissões de CO2 do país caíram 1%, na primeira queda trimestral desde a reabertura dos bloqueios para frear a propagação de Covid-19 em dezembro de 2022.
 
Apesar de um recuo pequeno, a notícia traz um pouco de refresco após um julho de sucessivos recordes no aumento da temperatura global.
 
O Carbon Brief usa como base os números oficiais e dados comerciais chineses e aponta que a perspectiva anual de queda nas emissões depende da redução do crescimento da demanda por eletricidade no segundo semestre do ano, confirmando expectativas setoriais.


 Por outro lado, se o crescimento da demanda continuar a exceder as tendências pré-Covid, as emissões devem permanecer estáveis ​​em 2024.

 Por enquanto, quando combinado o recuo do 2º tri com um aumento acentuado de 6,5% em janeiro-fevereiro e um declínio mensal em março, o saldo é de um aumento de 1,3% nas emissões de CO2 no primeiro semestre do ano, em comparação com o mesmo período em 2023.

A China tem uma matriz energética altamente dependente de carvão, respondendo por mais da metade do consumo global deste combustível fóssil intensivo em carbono. Projeções da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) indicam a possibilidade de um aumento anual de 6,5% na demanda de eletricidade da China, o que tornaria improvável um declínio no consumo de carvão do país. 
 
Mesmo assim, há um cenário positivo em termos renováveis pela frente, com a geração de eletricidade hidrelétrica mostrando recuperação em 2024, e a rápida expansão da capacidade solar e eólica desacelerando o uso de fósseis. 

Adição de Energia limpa em curso com recorde em 2023

As adições de capacidade de energia limpa na China continuam em níveis elevados este ano de 2024.

China adicionou 102 gigawatts (GW) de novas plantas de energia solar e 26GW de eólicas na primeira metade de 2024, como mostra a figura abaixo. Adições de Solar subiram 31% e em eólicas 12% comparado com a primeira metade do ano anterior; ou seja a China está “on track” para bater seu proprio recorde em novas instalações.

No total, as emissões do setor energético chinês caíram 3%, a produção de cimento caiu 7% e o consumo de petróleo foi 3% menor no segundo trimestre.
 
Isso ocorreu em meio a um crescimento de 4,2% na demanda de energia na comparação com o mesmo período de 2023. De acordo com o Carbon Brief, é um crescimento mais lento do que o observado em 2023 e no primeiro trimestre deste ano, mas ainda é muito maior do que a tendência pré-Covid.
 
As renováveis estão desempenhando um papel importante na redução da intensidade de carbono da economia – que melhorou 5,5%, mas ainda abaixo dos 7% necessários para atingir a meta do país para 2025.
 
No primeiro semestre de 2024, a geração eólica e solar cresceu em 171 terawatts-hora (TWh) – mais do que a produção total de energia do Reino Unido no mesmo período de 2023.
 
Já a eletrificação da frota reduziu a demanda por combustíveis para transporte em aproximadamente 4%, na comparação anual.

Ao todo, a fabricação de painéis solares, veículos elétricos e baterias foi responsável por apenas 1,6% do consumo de eletricidade da China e 2,9% de suas emissões no primeiro semestre de 2024.

Carvão em alta na indústria química. Enquanto países ricos se comprometem com o fim do uso do carvão para energia até 2035, e pedem que os demais embarquem nesse esforço, a China tem pela frente um grande desafio.
 
Desde a pandemia de Covid-19, o crescimento econômico chinês tem sido dependente de indústrias de manufatura intensivas em energia, especialmente a química.
 
“A indústria de produtos químicos a partir do carvão produz produtos petroquímicos a partir do carvão em vez do petróleo, apoiando as metas de segurança energética da China, mas com um grande custo para as metas climáticas, já que os processos de produção baseados em carvão têm pegadas de carbono  muito maiores”, observa o Carbon Brief.
 
Os preços do combustível fóssil em queda em relação ao petróleo impulsionaram um crescimento de 21% no consumo de carvão pela indústria química no primeiro semestre do ano.
 
Os analistas alertam que a fraca demanda por petróleo como matéria-prima petroquímica está levando à produção cada vez maior de carvão para produtos químicos, o que significa um custo maior de emissões de CO2.

Pico de emissões em 2023? Mesmo com as incertezas em relação à demanda por energia e queima de carvão mineral – o que diluiu as reduções de emissões do setor energético – a expectativa é de menos carbono.
 
É provável que a China ainda esteja no caminho certo para iniciar um declínio estrutural nas emissões em 2024, tornando 2023 o ano de pico nas emissões de CO2”, aponta o Carbon Brief. 
 
“Para que essa projeção se concretize, o crescimento da energia limpa precisaria continuar e o esperado arrefecimento no crescimento da demanda por energia no segundo semestre do ano precisaria se materializar, com o novo foco político em economia de energia e emissões de carbono se mostrando duradouro”, completa.

A China se comprometeu a atualizar suas metas climáticas para 2030 e a divulgar novas metas para 2035 no início do ano que vem – o que indicará para onde vão as emissões do setor energético.

Editado por: Nayara Machado – Dialogos da Transição/ CarbonBrief





Brasil pode suprir quase metade da demanda global de créditos de carbono até 2030

Projeção da WayCarbon em parceria com a ICC Brasil aponta que o potencial de geração de receitas com créditos de carbono até 2030 para o Brasil subiu de US$ 100 bilhões para até US$ 120 bilhões, considerando um cenário otimista de US$ 100 dólares por tonelada de CO2

Segundo o estudo, o país teria capacidade de atender de 22,3% a 48,7% da demanda global por créditos do mercado voluntário, que deve chegar entre 1,5 e 2 gigatoneladas de CO2e no final da década. 
 
E obter, no mínimo, entre R$ 1,39 bilhão e R$ 4,63 bilhões em 2030, considerando os preços médios dos créditos por tipos de projetos até agosto de 2021.
 
A atualização da projeção incorpora o cumprimento dos mecanismos de negociação previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris, e o decreto assinado pelo governo brasileiro no começo do ano para o mercado de carbono.
 
“Certamente tivemos avanços importantes na última COP [conferência das Nações Unidas sobre mudança climática], mas ainda há muito o que fortalecer não apenas nos mercados de carbono globais, mas também nacionais”, comenta Gabriella Dorlhiac, diretora executiva da ICC Brasil. 
 
Em novembro passado, os países reunidos em Glasgow na Escócia para a COP26 chegaram a um acordo sobre o Artigo 6, que regula o comércio internacional de emissões, criando as bases para o desenho de mercados nacionais.
 
Os cálculos da WayCarbon consideram o mercado voluntário – que já existe e não depende de um marco legal.
 
Atualmente, a oferta brasileira corresponde a cerca de 12% das emissões mundiais (45,28 MtCO2 em créditos em 2021), superando a participação de 2019 (3%) e o cenário mais otimista (10%) do estudo anterior para 2030. 

  • A demanda pelos créditos brasileiros vem principalmente de empresas do setor de serviços, óleo e gás e geradoras de energia.

“Tal desempenho é reflexo do aumento do número de créditos emitidos de soluções baseadas na natureza e da influência da regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris na COP26”, explica o documento.

Apesar do cenário otimista, ao consultar agentes econômicos envolvidos nesse segmento, o levantamento identificou que pelo menos cinco barreiras permanecem.
 
São questões de natureza política, mercadológica, econômica, técnica e regulatória. 
 
“É fundamental que o Brasil, no seu papel regulador, desenvolva e divulgue um planejamento específico para cumprir sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) e os compromissos de zerar o desmatamento ilegal e de redução de metano”, diz.
 
Além disso, recomenda ao governo brasileiro que apoie financeiramente o desenvolvimento de “metodologias que considerem a realidade climática do país”, além de garantir estabilidade ao mercado regulado por lei.
 
“Cabe ao Poder Legislativo brasileiro avançar neste sentido, com apoio do Executivo”, completa o relatório.
 
Lembrando que na Câmara, há um PL do deputado Marcelo Ramos (PL/AM), também com proposta de regulação para o mercado de carbono nacional. O texto não tem consenso e já passou por várias alterações, inclusive atendendo a pressões do governo para enfraquecer questões consideradas centrais para a efetividade do comércio interno de emissões. Uma delas é a separação clara entre o mercado voluntário e o mercado regulado.

Créditos: Diálogos da Transição/Epbr