
Na última década, os 10 piores desastres climáticos mataram cerca de 570 mil pessoas e eles foram intensificados pela emissão de gases de efeito estufa de atividades humanas como queima de petróleo, gás e carvão, além do desmatamento, concluem cientistas da World Weather Attribution (WWA).
Estudo publicado na última semana pelo grupo de pesquisa internacional analisou três ciclones tropicais no Indo-Pacífico, quatro ondas de calor na Europa, duas inundações (Índia e Mediterrâneo) e uma seca na África ocorridos desde 2004, para entender sua relação com o aumento da temperatura do planeta.

De acordo com a WWA, a seca em 2011 na Somália, que matou pelo menos 258 mil pessoas, foi intensificada pelo aquecimento causado pelas atividades econômicas, interrompendo padrões de chuvas e levando a temperaturas mais altas que aceleraram a evaporação da umidade do solo.
Antes dela, em 2008, o ciclone Nargis havia deixado mais de 138 mil pessoas mortas no sul de Mianmar. E o estudo descobriu que a velocidade do vento foi 18% maior por causa da mudança do clima, que aumentou a temperatura dos oceanos.
Mais recentemente, a onda de calor europeia de 2023, que matou mais de 37 mil pessoas, também teve dedo humano.
Os pesquisadores calculam que alguns dos picos de temperatura na região do Mediterrâneo teriam sido impossíveis sem o aquecimento global e se tornaram 1.000 vezes mais prováveis no sul da Europa.
“Sabemos que não existe desastre natural. É a vulnerabilidade e a exposição da população que transformam riscos meteorológicos em desastres humanitários. Cada vez mais, porém, há cada vez menos riscos meteorológicos que podem ser puramente descritos como ‘naturais’”, diz a WWA.
“Nosso trabalho, juntamente com a literatura científica mais ampla, agora mostra que, com cada tonelada de carvão, petróleo e gás queimados, todas as ondas de calor ficam mais quentes, e a esmagadora maioria dos eventos de chuvas intensas, secas e ciclones tropicais ficam mais intensos”, completa.
Chuvas torrenciais na Espanha
De 29 a 30 de outubro de 2024, o leste da Espanha foi atingido por chuvas excepcionalmente fortes, que provocaram inundações e mataram mais de 200 pessoas.
A enchente também deixou centenas de milhares de pessoas sem água potável e eletricidade na região de Valencia.
Foi o maior número de vidas perdidas por causa de uma inundação na Europa desde 1967.

Segundo a análise da WWA, a partir de valores diários de precipitação, há indícios de que eventos de chuva intensa de um único dia, tão intensos quanto o observado, são cerca de 12% mais intensos e cerca de duas vezes mais prováveis no clima atual, ou seja, 1,3 °C mais quente do que seria no clima pré-industrial.
Eles observam, no entanto, que muitos dados oficiais estão desatualizados, o que impede uma avaliação mais aprofundada.
Além disso, no caso espanhol, um outro fator humano que contribuiu para o desastre foi a demora em emitir alertas para prevenir a população.
Esta semana que tem COP29
Nesta semana, começa em Baku, capital do Azerbaijão a tão aguardada COP29, conferência sobre mudanças climáticas das Nações Unidas que terá como missão destravar recursos financeiros para a transição energética global.
Tão aguardada porque dinheiro é ponto central: são os investimentos que definem se vamos seguir em uma economia fóssil ou vamos em direção às renováveis. E sem dinheiro, países que já precisam lidar com questões sociais desafiadoras, dificilmente conseguirão acompanhar as nações mais abastadas.
Mas essa COP ocorre em meio a um cenário pouco animador. Guerras na Ucrânia e na região do Oriente Médio adicionam obstáculos a negociações historicamente complexas.
Some-se a isso, a recente eleição de Trump nos EUA, que embora só assuma a presidência em janeiro de 2025, já desanima diplomatas. Afinal, o que for decidido nas próximas semanas pode ser desfeito em alguns meses. Vale lembrar a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 2020.
E ainda: na ultima sexta (8/11) uma gravação secreta mostrou o presidente-executivo da equipe da COP29, Elnur Soltanov, discutindo “oportunidades de investimento” na empresa estatal de petróleo e gás com um homem se passando por um potencial investidor – usando o cargo na conferência para discutir possíveis acordos sobre combustíveis fósseis, segundo a BBC.
Isso tudo embalado em previsões cada vez mais alarmantes: 2024 caminha para ser o ano mais quente da história (depois de 2023 ter quebrado o recorde), segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, em inglês).
E sem perspectivas de quando a temperatura irá baixar, já que as políticas atuais levam a cenários de 2,6°C a 3,1°C.
Creditos: Dialogos da Transição – Editada por Nayara Machado


