Brasil entre os países mais alinhados com Net Zero, mas fica para trás no hidrogênio.

Os atuais planos climáticos (Contribuições Nacionalmente Determinadas – NDCs) do Brasil, França, Reino Unido, EUA e Austrália são os mais alinhados com o cenário de emissões líquidas zero projetado pela BloombergNEF em relatório divulgado esta semana.
 
Com o tempo para ação esgotando, a análise traz indicativos de como o mundo ainda pode alcançar parte dos objetivos do Acordo de Paris e ficar abaixo de 2°C.
 
Embora cientistas do IPCC apontem que o ideal é limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C até 2100, o cenário net zero da BNEF mostra que há uma chance de 67% de manter o aquecimento global em 1,75 °C. Ver figura 1 abaixo.

Nele, a demanda por petróleo, gás e carvão atinge o pico rapidamente e sofre um declínio acentuado a partir do ano que vem (2025). Ver figura 2 abaixo.

“Os setores de energia, transporte, indústria e edifícios estão transacionando em velocidades diferentes e de acordo com as tecnologias disponíveis para sua descarbonização, mas logo todos veem as emissões começando a cair imediatamente. Estas mudanças de curto prazo só ocorrem graças a uma rápida expansão das tecnologias de energia limpa”, destaca o documento.
 
A simulação considera que a capacidade global de energia renovável triplica até 2030, a rápida adoção de veículos elétricos reduz o mercado de carros a gasolina e diesel até 2034 e as tecnologias de tecnologia de captura de carbono, armazenamento de energia e geração nuclear dão um salto antes de 2030.
 
Quase metade das emissões evitadas entre hoje e 2050, em todo o mundo, virá da descarbonização do setor de energia elétrica.

Enquanto um quarto depende da eletrificação dos setores de uso final, como transporte rodoviário, edifícios e indústria.
 O quarto restante é considerado o mais desafiador: inclui biocombustíveis no transporte marítimo e aéreo; hidrogênio na indústria e no transporte; e captura e armazenamento de carbono na indústria e na geração de energia. 

Nem todo mundo está alinhado. A BNEF avalia que as NDCs da Alemanha, Coreia do Sul, Japão e Índia estão no meio do caminho e precisam aumentar a ambição para entrar na rota net zero. 

 Enquanto China, Indonésia e Vietnã estão mais distantes, com maior margem para elevar a ambição em suas próximas Contribuições Nacionalmente Determinadas.

Corrida do hidrogênio

Outro estudo da BNEF publicado recentemente aponta, em contrapartida, o Brasil ficando para trás na atração de projetos de hidrogênio de baixo carbono – apesar de todo o seu potencial de fornecimento de eletricidade renovável.
 
Com políticas de apoio mais robustas, China, Europa e EUA poderão responder por mais de 80% do fornecimento global de hidrogênio limpo até 2030, calcula a consultoria.
 
Já regiões como América Latina e Austrália, apesar de terem grandes projetos em andamento, podem desempenhar um papel menor devido ao fraco apoio político.
 
Espera-se que os EUA sozinhos se tornem o maior produtor individual de hidrogênio limpo até o fim da década, respondendo por quase 37% da oferta global. Em grande parte por conta dos incentivos que o governo norte-americano vem dando à indústria local, contidos na Lei de Redução da Inflação (IRA, em inglês) e na Lei Bipartidária de Infraestrutura (BIL).
 
Além disso, a estimativa é que, globalmente, apenas 30% dos 1,6 mil projetos anunciados até agora saiam do papel, resultando em um total de 477 projetos em operação até o final da década. 

Ainda assim, a BNEF espera que o fornecimento global de hidrogênio de baixo carbono aumente em 30 vezes, saltando de 500 mil toneladas, hoje, para 16,4 milhões de toneladas por ano, até 2030.

Fonte: Dialogos da Transição ( editado por Nayra Machado)/ BloombergNEF

No ritmo atual, mundo não vai triplicar renováveis até 2030, diz Irena

Em dezembro do ano passado, durante a Conferência Climática das Nações Unidas (COP28), cerca de 200 países celebraram o compromisso global de triplicar a capacidade de instalações renováveis até 2030, o que significa atingir 11 TW em menos de sete anos.

É uma forma de reduzir o consumo de combustíveis fósseis e consequentemente, o lançamento de gases de efeito estufa na atmosfera. 
 
Embora o mundo esteja recordes de capacidade de energia renovável, o ritmo é insuficiente e a trajetória está “claramente fora do curso” para alcançar a meta, mostra um estudo recém publicado pela Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena, em inglês). 

“Os dados mais recentes mostram um progresso inadequado, especialmente em relação ao triplo da capacidade de energia renovável até 2030, ao desenvolvimento de veículos elétricos, à capacidade de eletrolisadores para a produção de hidrogênio verde e à ampliação dos investimentos em geração de energia renovável, redes e flexibilidade”, resume o relatório (.pdf).
 
Segundo a agência, a empolgação na divulgação de dados sobre adições recordes esconde uma realidade perversa: a transição está concentrada em países ricos e na China.
 
E aponta para uma ameaça real de que, se continuar assim, a meta de triplicar renováveis não será alcançada – ainda são necessários 7,2 TW de energia renovável para chegar aos 11 TW.

“A tendência de implantação estabelecida ao longo das últimas duas décadas persiste, principalmente focada na China, na UE e nos Estados Unidos. Essa concentração significa que muitos países em desenvolvimento continuam a perder as oportunidades oferecidas pelas energias renováveis”, observa. 

Na África Subsaariana, por exemplo, 567 milhões de pessoas ainda estavam sem acesso à eletricidade em 2021, quando foi feito o último levantamento.

Financiamento para emergentes é chave. Ainda de acordo com a Irena, economias emergentes e em desenvolvimento (EMDE) têm recebido níveis desproporcionalmente baixos de investimento.  

Em 2023, os investimentos relacionados à transição energética foram estimados em mais de US$ 2 trilhões pela BloombergNEF. Mas apenas 14% ocorreu em países emergentes ou em desenvolvimento – excluindo a China. Quando Brasil e Índia saem da conta, as EMDEs representaram apenas 10% dos investimentos globais.
 
Em termos per capita, 38 países ricos (14% da população mundial) atraíram cinco vezes mais investimento per capita do que as 154 EMDEs (excluindo a China) que compõem dois terços da população mundial. 

Brasil quer protagonizar descarbonização da indústria, mas caminho é longo. O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviço, Geraldo Alckmin, disse, nesta terça-feira (19), que a descarbonização da indústria pode colocar o Brasil em posição de destaque no enfrentamento às mudanças climáticas, oferecendo energia e soluções sustentáveis para o resto do mundo.
 
“Estamos em frente a um desafio, e o Brasil vai ser o grande protagonista do mundo, com segurança alimentar, segurança energética e clima”, disse o vice-presidente durante evento sobre mobilidade de baixo carbono. 
 
Energias renováveis, hidrogênio, biocombustíveis, eletrificação da frota e mercado de carbono são algumas palavras recorrentes no discurso do governo Lula 3, que em pouco mais de um ano colocou no papel algumas políticas para fazer jus à bandeira verde – mas muita coisa ainda precisa avançar.

Descarbonizar a indústria brasileira é uma necessidade que vai custar, pelo menos, R$ 40 bilhões até 2050, segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
 
O setor privado precisa investir em inovação, tecnologia, novas fontes de energia e processos. Por outro lado, espera do país um ambiente de negócios favorável e um custo de capital que permita esses investimentos.
 
Também nesta terça, a CNI entregou ao Congresso Nacional, em sessão solene com a presença de Alckmin, sua agenda prioritária.
 
Entre os 17 itens, estão: mercado de carbono, hidrogênio, mobilidade sustentável, transição energética.

Créditos: Dialogos da Transição/Editada por Nayara Machado

Brasil pode exportar hidrogênio verde na forma de aço

Estudo do think tank de energia alemão Agora divulgado nesta quinta (15/6) afirma que é possível, tecnicamente, chegar a emissões líquidas zero na siderurgia ainda na década de 2040 e o segredo está no hidrogênio verde.

Ao lado de investimentos em eficiência no uso dos materiais, aumento da reciclagem, aplicação da bioenergia e de soluções de captura e armazenamento de carbono, a substituição do carvão por hidrogênio verde tem condições de alinhar a indústria de aço às metas globais de limitar o aquecimento do planeta a 1,5°C.
 
Mais do que isso: abre uma janela de oportunidade para exportadores de ferro se converterem em fornecedores de commodities verdes. O Brasil é um deles.
 
Segundo maior exportador de minério de ferro, o Brasil (22%) fica atrás apenas da Austrália (53%) e está em posição de vantagem em relação aos outros três fornecedores internacionais mais relevantes: África do Sul (4%); Canadá (3%) e Ucrânia (3%). 
 
O estudo destaca o país sulamericano como o com maior capacidade de produção de hidrogênio verde, dada a alta renovabilidade de sua matriz elétrica e o potencial de crescimento da capacidade solar e eólica.


A recomendação do think tank é que, em vez de tentar exportar combustível, países como o Brasil deveriam se preparar para investir em “hidrogênio incorporado” na forma de ferro e aço verdes.

“As exportações de ferro verde proporcionarão novas oportunidades aos países que planejam exportar hidrogênio renovável ou de baixo carbono, criando mais empregos no mercado interno e permitindo que os países capturem uma parte adicional de valor agregado da cadeia de valor da siderurgia”, explica o relatório. 
 

Essa virada de chave para o comércio internacional de produtos com maior valor agregado poderia alavancar em 18% o valor das exportações e em 16% o mercado de trabalho local, mostra a análise.

O comércio de ferro verde também tem potencial de reduzir os custos da transformação global do aço, uma vez que o transporte de hidrogênio incorporado como ferro verde será significativamente mais barato do que o transporte de hidrogênio e seus derivados por navio. 
 
Para impulsionar este cenário, os analistas da Agora recomendam a construção de parcerias entre exportadores e importadores. A Austrália já está trabalhando neste sentido.

Corredores logísticos. Em abril do ano passado, um consórcio formado pelo Fórum Marítimo Global, BHP, Rio Tinto, Oldendorff Carriers e Star Bulk Carriers firmou um acordo para avaliar a criação de um corredor verde de minério de ferro entre a Austrália e o Leste da Ásia.


O objetivo é mobilizar a demanda por transporte verde e escalar o frete de zero ou quase zero emissão de gases de efeito estufa. A amônia verde (derivada de hidrogênio) desponta como a escolha provável de combustível.
 
A Austrália é o maior exportador de minério de ferro do mundo e embarcou 872 milhões de toneladas em 2021.

Demanda ultrapassará a oferta. Análise da  McKinsey indica que a demanda de aço verde provavelmente ultrapassará a oferta, com a projeção de crescimento significativo de projetos de energia renovável na Europa e nos Estados Unidos.
 
A expectativa é que a demanda global por aço com baixo teor de CO2 cresça dez vezes na próxima década, de aproximadamente 15 milhões de toneladas em 2021 para mais de 200 milhões de toneladas até 2030 – representando mais de 10% da demanda total de aço. Em 2040, deve chegar a 25% da demanda. 

Com o mercado aquecido, os prêmios verdes podem chegar a US$ 200-US$ 350 por tonelada até 2025 e US$ 300-US$ 500/tonelada de 2025 a 2030, calcula a McKinsey.

Fonte: epbr – Dialogos da Transição ( editado por Nayara Machado)

G7 lança clube do clima e pode padronizar commodities verdes. O G7 é formado por Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão, Canadá, Estados Unidos e União Europeia

O grupo das sete maiores economias mundiais lançou no dia 12/12 um clube internacional do clima para acelerar ações de cortes de emissões, especialmente na indústria. 
 
Em comunicado, a Alemanha, presidente do G7, define como escopo inicial do clube a descarbonização de setores industriais intensivos em carbono e mais difíceis de cortar emissões – por seu potencial de maior impacto nas ambições climáticas. 
 
Outros setores com potencial substancial de mitigação de gases de efeito estufa (GEE) podem ser incluídos depois.
 
De acordo com o ministro da Economia e vice-chanceler da Alemanha, Robert Habeck, o G7 pretende estimular um mercado para commodities “favoráveis ao clima”, como aço e cimento verde.
 
Na prática, funcionará como mais um fórum intergovernamental de discussão. Mas o foco na indústria intensiva e o poder econômico dos países membros pode ajudar a costurar acordos, por exemplo, em torno do hidrogênio de baixo carbono – a grande promessa de descarbonização da energia. 

Um dos pilares de trabalho do grupo é a “transformação da indústria” e, para isso, pretende “alinhar, na medida do possível”, metodologias, padrões, estratégias e marcos setoriais para produtos industriais verdes.
 
“Dado o papel importante do hidrogênio nos processos futuros da indústria, as discussões exploratórias também devem incluir um sistema de contabilidade comum para as pegadas de GEE do hidrogênio. Isso será feito por meio do apoio e do trabalho com iniciativas relevantes mais amplas”, explica o comunicado.
 
Essas iniciativas incluem a Agenda de Descarbonização Industrial (IDA) do G7, o Pacto de Ação para o Hidrogênio (HAP), a Agenda Breakthrough, a Iniciativa de Descarbonização Industrial Profunda do Ministério da Energia Limpa (IDDI) e a Coalizão First Movers.

Embora não seja um clube fechado, para participar, é preciso estar de acordo com alguns critérios, entre eles “a plena e efetiva implementação do Acordo de Paris”, com esforços compatíveis com a ambição de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C até o fim do século.
 
O G7 também pediu à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e à Agência Internacional de Energia (IEA) para hospedar um secretariado interino. Veja aqui o termo de referência do clube (.pdf)

Fonte: Diálogos da Transição/Epbr

NEUTRALIDADE DE CARBONO: CAMINHOS PARA O SETOR DE ENERGIA

Esse texto é baseado no artigo Neutralidade de carbono: reflexões sobre estratégias e oportunidades para o Brasil, publicado na Revista do BNDES 56.

Em 2021, o Painel Intergovernamental de Mudança do Clima (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU) emitiu seu sexto relatório e cobrou ações imediatas, em escala global, para limitar o aquecimento médio global ao máximo de 2°C, e preferencialmente a 1,5°C, em relação aos níveis pré-industriais, como estabelecido no Acordo de Paris.

A urgência de mobilizar esforços é baseada em estudos que indicam que um aumento de temperatura acima desses limites poderia gerar mudanças climáticas irreversíveis, comprometendo não só os modos de vida e de produção atuais, mas a própria existên­cia humana no planeta.

Dados científicos mostram que o aquecimento global decorre, fundamentalmente, da ação do homem – em virtude do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) a partir da era industrial. Assim, a solução que vem sendo desenhada globalmente, capitaneada pelos países industrializados, prescreve uma drástica alteração nos sistemas de produção e consumo de ener­gia. A mudança passa por evitar as emissões de GEEs ou por fazer com que sejam compensadas por meio da captura de um volume de COequivalente, com o objetivo de chegar a emissões líquidas iguais a zero até 2050.

O que é preciso para zerar as emissões de carbono?

Relatório elaborado pela Agência In­ternacional de Energia (IEA, 2021) deixa claro o desafio da mudança necessária no setor de energia mundial para zerar as emissões de carbono. Ele aponta que, entre 2030 e 2050, o consumo de energia deverá permanecer restrito ao patamar de 550 exajoules anuais, o que significa realizar, ainda nesta década, uma redução de cerca de 8%. Essa limitação representa um desafio considerável em um contexto de demanda energética crescente – já que a população mundial deve chegar a 9,7 bilhões em 2050 e o PIB global tem previsão de ser mais que o dobro do atual.

O estudo aponta que, simultaneamente a uma eletrificação maior da economia, será preciso que a geração de energia elétrica tenha suas emissões reduzidas em cerca de 60% até 2030 e alcance emissões líquidas negativas em 2050. A mudança envolve uma alteração significativa na composição da matriz energética mundial, com redução radical das fontes fósseis – petróleo, gás natural e carvão – e incremento de renováveis, como mostra o gráfico a seguir.

Para além disso, frente à demanda de energia mundial e ao potencial impacto econômico, social e tecnológico dessa transição, outras soluções vêm se destacando. Duas rotas tecnológicas, em especial, podem atuar como verdadeiros catalisadores da redução de emissões a partir de meados da década de 2030: o uso do hidrogênio como energético e as tecnologias de captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS, do inglês carbon capture, utilization and storage). Isso porque ambas contribuem para remoção de carbono (antes ou depois da combustão) em setores de difícil descarbonização.

Tecnologias CCUS

Essas tecnologias têm o objetivo de capturar o CO2 de grandes fontes emisso­ras, como termelétricas e indústrias que utilizam combustíveis fósseis ou biocombustíveis, assim como diretamente da atmosfera (carbon direct air capture technologies).

Elas são o único grupo de tecnologias que, além de contribuir diretamente com a redução de emissões em setores-chave, como as indústrias de cimento, siderurgia e química, podem auxiliar a equilibrar as emissões inevitáveis em outros setores, como aviação e transportes de longa distância. Constituem assim uma tecnologia crítica para o alcance do objetivo de neutralidade nas emissões.

Entenda como funcionam:

Hidrogênio e CCUS

A viabilização do uso do hidrogênio como energético, dentre outros desafios, depende de sua produção com baixa emissão de carbono, o que, por sua vez, decorre da rota de produção utilizada. Isso porque ele é derivado de outros elementos, como a água ou o me­tano, maior componente do gás natural. No Brasil, há algumas oportunidades relacionadas a isso.

A primeira seria a produção por meio da eletrólise da água, que requer uma fonte de eletricidade limpa, como solar e eólica. A vocação do Nordeste brasileiro para esse tipo de geração e a relativa proximidade do mercado europeu para eventual expor­tação dariam uma vantagem competitiva ao país nesse tipo de produção. Esse é o chamado hidrogênio verde. No entanto, ainda são necessários desenvolvimentos tecnológicos para viabilizar, economicamente, essa produção em larga escala – em 2020, menos de 0,1% da produção mundial dedicada de hidrogênio ocorreu por essa rota.

A segunda via de produção é derivada da reforma a vapor do gás natural, rota que respondeu por mais de 80% de todo o hidrogênio produzido no mundo em 2020. Como esse processo emite CO2, é importante que esteja atrelado ao uso de CCUS, garantindo a produção do hidrogênio com baixos níveis de emissão, a custos competitivos. Essa rota é estratégica para dar escala ao uso do hidrogênio como energético e, portanto, para a própria transição para uma economia de baixo carbono. As enormes reservas de gás natural no pré-sal favorecem que o Brasil também seja um grande produtor de hidrogênio a partir dessa rota.

Por fim, é importante ressaltar que o padrão de emissões brasileiro é muito diferente do resto do mundo. O setor de energia, na média mundial, responde por mais de 80% das emissões. No caso do Brasil, que conta com uma matriz energética bastante limpa, o setor de energia é responsável por apenas 19% das emissões. Por isso, o país tem a chance de potencializar inúmeras vantagens competitivas que podem aumentar seu nível de riqueza e bem-estar social, de forma sustentável, colaborando como um dos principais atores no enfrentamento do aquecimento global.

Fonte: BNDES

Brasil pode suprir quase metade da demanda global de créditos de carbono até 2030

Projeção da WayCarbon em parceria com a ICC Brasil aponta que o potencial de geração de receitas com créditos de carbono até 2030 para o Brasil subiu de US$ 100 bilhões para até US$ 120 bilhões, considerando um cenário otimista de US$ 100 dólares por tonelada de CO2

Segundo o estudo, o país teria capacidade de atender de 22,3% a 48,7% da demanda global por créditos do mercado voluntário, que deve chegar entre 1,5 e 2 gigatoneladas de CO2e no final da década. 
 
E obter, no mínimo, entre R$ 1,39 bilhão e R$ 4,63 bilhões em 2030, considerando os preços médios dos créditos por tipos de projetos até agosto de 2021.
 
A atualização da projeção incorpora o cumprimento dos mecanismos de negociação previstos no Artigo 6 do Acordo de Paris, e o decreto assinado pelo governo brasileiro no começo do ano para o mercado de carbono.
 
“Certamente tivemos avanços importantes na última COP [conferência das Nações Unidas sobre mudança climática], mas ainda há muito o que fortalecer não apenas nos mercados de carbono globais, mas também nacionais”, comenta Gabriella Dorlhiac, diretora executiva da ICC Brasil. 
 
Em novembro passado, os países reunidos em Glasgow na Escócia para a COP26 chegaram a um acordo sobre o Artigo 6, que regula o comércio internacional de emissões, criando as bases para o desenho de mercados nacionais.
 
Os cálculos da WayCarbon consideram o mercado voluntário – que já existe e não depende de um marco legal.
 
Atualmente, a oferta brasileira corresponde a cerca de 12% das emissões mundiais (45,28 MtCO2 em créditos em 2021), superando a participação de 2019 (3%) e o cenário mais otimista (10%) do estudo anterior para 2030. 

  • A demanda pelos créditos brasileiros vem principalmente de empresas do setor de serviços, óleo e gás e geradoras de energia.

“Tal desempenho é reflexo do aumento do número de créditos emitidos de soluções baseadas na natureza e da influência da regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris na COP26”, explica o documento.

Apesar do cenário otimista, ao consultar agentes econômicos envolvidos nesse segmento, o levantamento identificou que pelo menos cinco barreiras permanecem.
 
São questões de natureza política, mercadológica, econômica, técnica e regulatória. 
 
“É fundamental que o Brasil, no seu papel regulador, desenvolva e divulgue um planejamento específico para cumprir sua NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) e os compromissos de zerar o desmatamento ilegal e de redução de metano”, diz.
 
Além disso, recomenda ao governo brasileiro que apoie financeiramente o desenvolvimento de “metodologias que considerem a realidade climática do país”, além de garantir estabilidade ao mercado regulado por lei.
 
“Cabe ao Poder Legislativo brasileiro avançar neste sentido, com apoio do Executivo”, completa o relatório.
 
Lembrando que na Câmara, há um PL do deputado Marcelo Ramos (PL/AM), também com proposta de regulação para o mercado de carbono nacional. O texto não tem consenso e já passou por várias alterações, inclusive atendendo a pressões do governo para enfraquecer questões consideradas centrais para a efetividade do comércio interno de emissões. Uma delas é a separação clara entre o mercado voluntário e o mercado regulado.

Créditos: Diálogos da Transição/Epbr

O plano da Austrália para o hidrogênio e as lições para o Brasil

Estratégia Nacional de Hidrogênio vai aportar pelo menos 1,3 bilhão de dólares australianos e quer posicionar país como um dos principais players até 2030.

Em 22 de novembro de 2019, a Austrália lançou sua Estratégia Nacional de Hidrogênio, com foco nas alternativas de baixo carbono e uma ambição: posicionar a indústria australiana como um importante player global até 2030.

Ao todo, a estratégia desenha 57 ações conjuntas para os governos australianos, considerando exportações, transporte, uso industrial, redes de gás, sistemas elétricos e questões transversais como segurança, emprego e impactos ambientais.

Para dar o primeiro impulso, a iniciativa vai aportar pelo menos 1,3 bilhão de dólares australianos (cerca de US$ 900 milhões) e a expectativa é atrair de três a quatro vezes esse valor em financiamento privado.

“Houve enorme apoio político em todas as nossas jurisdições – oito estados e territórios e o governo federal. A experiência de hoje mostrou que, com o subsídio inicial do governo, é possível atrair três ou quatro vezes esse valor do setor privado. Estamos olhando para talvez cerca de seis bilhões de dólares em investimentos na Austrália”, conta Fiona Simon, presidente do Conselho Australiano de Hidrogênio (AHC, sigla em inglês).

Ela participou na segunda (22/8) de um encontro organizado pelo Núcleo Energia do Cebri e pela Embaixada da Austrália no Brasil, sobre as oportunidades de colaboração entre os dois países.

O plano australiano considera três rotas: carvão com CCUS (captura, armazenamento e uso de carbono), gás natural com CCUS (o hidrogênio azul) e eletrólise com energia renovável (o verde).

E deve colocar o país logo atrás da Europa como principal mercado.

Um relatório de outubro do ano passado da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês) aponta que, até 2030, a capacidade instalada de eletrolisadores para produção de H2 verde deve escalar para 54 gigawatts (GW), considerando os projetos em construção e planejados – Europa e Austrália lideram, com 22 GW e 21 GW, respectivamente.

Em seguida vem a América Latina (5 GW) e o Oriente Médio (3 GW).

Só que, chegar até lá, requer muito mais recursos.

“[Esses 6 bilhões de dólares] provavelmente estão longe de onde precisamos estar. O custo da transição energética global é uma quantia enorme”, diz Fiona.

O AHC calcula que serão necessários pelo menos 80 bilhões de dólares australianos para desenvolver a infraestrutura de produção, eletrolisadores e adaptação de portos – e a porcentagem do governo nessa conta precisaria chegar a 20 bilhões de dólares australianos.

Para Fiona, um acordo sobre a precificação do carbono no mercado internacional seria um fator importante para incentivar mais investimentos.

O país também está dobrando os investimentos para renováveis. Em 2015, 14% dos investimentos na Austrália eram em energias renováveis. Hoje, são 35%.

Aprendizado para o Brasil

“Os dois países têm vantagens nesta área, como o alto potencial de produção de energia renovável, que podem levá-los a competir, mas têm também oportunidades de cooperação, relacionadas ao desenvolvimento do mercado, estabelecimento de um marco regulatório, promoção de inovação e atração de investimentos”, comenta Jorge Camargo, vice-presidente do Conselho Curador do Cebri.

O país começa a dar os primeiros passos nessa agenda. As iniciativas mais avançadas estão concentradas em portos, como do Pecém, no Ceará, Suape, em Pernambuco, e Açu, no Rio, que estão desenhando seus hubs de hidrogênio.

Desde o ano passado, grandes empresas brasileiras e internacionais vêm firmando memorandos de entendimento com os governos estaduais para desenvolver uma cadeia para o gás de baixo carbono. A maior parte dos projetos visa a exportação de H2 verde e azul.

Enquanto isso, o governo federal trabalha em um Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2), sem escolher uma rota favorita. Na última sexta (19/8), o Ministério de Minas e Energia (MME) divulgou os representantes que irão compor o Comitê Gestor do PNH2. Veja portaria

Para Luís Viga, presidente da mineradora australiana Fortescue Metals no Brasil, há uma cooperação importante entre as empresas e o setor público sobre o assunto, mas a formulação de políticas públicas para o setor no Brasil ainda está aquém da rápida multiplicação de projetos e do interesse da iniciativa privada.

Recentemente, a mineradora anunciou um investimento de US$ 6 bilhões em hidrogênio verde no país.

“O setor precisa de incentivos do governo, assim como aconteceu com outras energias renováveis, e principalmente de segurança regulatória, sem protecionismo”, defendeu.

Atualmente, há cerca de 20 empresas investindo em hidrogênio verde no Brasil, os projetos concentram-se nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Espírito Santo e Rio de Janeiro, envolvendo empresas como a Fortescue, Enegix, Siemens, Qair, Neoenergia, White Martins, Shell, entre outras.

Créditos: Epbr/Diálogos da Transição

Como o Brasil pode entrar na rota do aço verde

Um dos caminhos da transição é substituir o carvão mineral por gás natural nos fornos de produção e, futuramente, hidrogênio.

O Brasil tem uma das melhores jazidas de minério de ferro do mundo, tem um potencial relevante de produção de hidrogênio verde via energias renováveis, e pode utilizar o gás natural como combustível de transição.

O setor siderúrgico tem pela frente o enorme desafio de oferecer produtos com baixa intensidade de carbono — o segmento é a maior fonte industrial de emissões de gases de efeito estufa (GEE) do mundo –, o que pode ser uma oportunidade para o Brasil transformar sua produção.

Estudo do Instituto E+ Transição Energética aponta que o Brasil tem potencial abundante para a produção de hidrogênio renovável e a produção e exportação de aço verde.

“Não há uma ‘bala de prata’ para descarbonização do aço, mas sim uma combinação de tecnologias e iniciativas voltadas para as especificidades das regiões em que as indústrias estão localizadas”, explica Emilio Matsumura, diretor-executivo do Instituto E+ e um dos autores do estudo.

Em entrevista à agência epbr, Matsumura afirma que os recursos minerais brasileiros combinados à alta renovabilidade da matriz energética deixam o país bem posicionado para a produção de aço com baixo teor de carbono a custos significativamente mais baixos.

Isso significaria também uma mudança no perfil de exportações — o país poderia deixar de exportar minério de ferro para vender produtos mais valiosos e aço verde, diz o estudo.

“O Brasil já tem um minério de ferro de alta qualidade. No mundo, o setor siderúrgico é visto dentro das estratégias de descarbonização como um setor chave, porque ele consome muita energia e emite bastante. Então muitos governos, empresas e consumidores estão olhando para a capacidade de [a siderurgia] produzir com a menor emissão possível”, explica Matsumura.

A indústria siderúrgica mundial responde individualmente por 8% da demanda total de energia final, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês). O setor também contribui com 7% das emissões de CO2 relacionadas à produção e uso de energia.

Um dos caminhos da transição é substituir o carvão mineral por gás natural nos fornos de produção e, futuramente, hidrogênio.

75% da produção global utiliza altos fornos a carvão mineral, a rota mais intensiva em carbono. Os outros 25% são em fornos elétricos, que usam sucata de aço como matéria-prima principal e emitem menos que a rota tradicional.

Mas eliminar o carvão tem um custo e a competitividade fala mais alto.

“Você poderia produzir aço com menor emissão ainda que se utilizasse insumos mais caros? Sim, desde que as pessoas estivessem dispostas a pagar um prêmio por esse aço”.

Países europeus, por exemplo, se movimentam nesse sentido. Enquanto as empresas lançam mão de investimentos para descarbonizar produção e cadeia de suprimentos.

pacote Fit for 55, lançado em julho passado pela Comissão Europeia, cria um ajuste de fronteira para exportações e um dos setores que precisarão reduzir emissões para vender aos países do bloco é o de aço.

Para transformar sua siderurgia, o país precisa investir na expansão das florestas, produção sustentável de carvão vegetal, produção de hidrogênio e novas instalações e tecnologias, diz o estudo do E+.

Menos representativo na média mundial, o aço produzido com carvão vegetal responde por 10% da produção brasileira e reduz a intensidade de carbono do aço nacional.

O que já foi um problema no passado, pode ser parte da solução, diz o diretor do E+. “Cada vez mais o Brasil tem consciência e caminha para obter carvão vegetal com certificação, com todo cuidado possível”, completa Matsumura.

A limitação é que ele só pode ser usado em pequenos fornos, que precisam estar próximos à produção do carvão.

Outra possibilidade vem do hidrogênio renovável. O Brasil acumula memorandos de entendimentos para projetos em larga escala em portos — mas quase todos visam exportação.

No Rio de Janeiro, o Porto do Açu pretende utilizar sua expertise e infraestrutura na indústria de óleo e gás para se tornar um grande player na produção de hidrogênio azul e verde e ainda viabilizar a implantação de um hub de aço verde.

A ideia é industrializar o minério de ferro que chega via mineroduto de Minas Gerais usando o hidrogênio produzido no porto e fornecer aço de baixo carbono.

Fonte: Diálogos da Transição/Epbr

No mercado de trabalho, a transição energética, pode resultar em um ganho de cerca de 200 milhões e uma perda de cerca de 185 milhões de empregos diretos e indiretos globalmente até 2050, diz a consultoria McKinsey. 

No mercado de trabalho, a transição pode resultar em um ganho de cerca de 200 milhões de empregos e uma perda de cerca de 185 milhões de empregos diretos e indiretos globalmente até 2050. 

Isso inclui a demanda por empregos nas operações e na construção de novos empreendimentos. 

A McKinsey estima uma redução de nove milhões na demanda por empregos nos setores de extração e produção de combustíveis fósseis, e de quatro milhões na geração de energia a partir de fósseis, como carvão.

Em contrapartida, cerca de oito milhões de empregos diretos seriam criados em energia renovável, hidrogênio e biocombustíveis até 2050. 

Expostos ao risco. À medida que os ativos de alta emissão são reduzidos e os de baixa emissão aumentam na transição, os riscos incluem avanço dos preços e volatilidade do fornecimento de energia, e deterioração dos ativos.

“Embora a transição crie oportunidades, setores com produtos ou operações de alta emissão – que geram cerca de 20% do PIB global – enfrentariam efeitos substanciais na demanda, custos de produção e emprego”, diz o relatório da McKinsey. 

No cenário Net Zero 2050, a produção de carvão para uso de energia seria praticamente eliminada em 2050, e os volumes de produção de petróleo e gás seriam cerca de 55% e 70% menores, respectivamente, do que hoje. 

Essas mudanças, no entanto, teriam impactos sobre os custos de produção em setores como aço e cimento, que enfrentariam aumentos até 2050 de cerca de 30% e 45%, respectivamente.

O alerta também vale para os países mais pobres e os altamente dependentes de combustíveis fósseis.

“Esses países são mais suscetíveis a mudanças na produção, estoque de capital e emprego porque os setores expostos constituem partes relativamente grandes de suas economias”. 

O relatório calcula que países da África Subsaariana e a Índia, entre outros mais expostos ao risco, precisam investir hoje 1,5 vezes ou mais do que as economias avançadas, como parcela do PIB, para apoiar o desenvolvimento econômico e construir infraestrutura de baixo carbono

Daí a corrida desses setores para encontrar alternativas de baixo carbono. O que, segundo a análise, pode ser mais econômico.

Por exemplo, melhorar a eficiência energética dos sistemas de aquecimento em usinas siderúrgicas reduz as emissões e os custos operacionais

“Mesmo quando a descarbonização aumenta os custos operacionais, as empresas podem se beneficiar desse passo – por exemplo, se os consumidores estiverem dispostos a pagar mais por produtos de baixo carbono ou se as empresas estiverem sujeitas a mandatos de precificação de carbono”.

Créditos: Diálogos da Transição Epbr/McKinsey

Hidrogênio pode ser rota para gás natural na transição energética, aponta EPE- Empresa de Pesquisa Energética.

A entrada de múltiplas rotas de produção de hidrogênio, com participação de fósseis e renováveis, pode contribuir para a ampliação do uso do gás natural na estratégia brasileira de transição energética. A EPE deverá publicar nos próximos dias notas técnicas sobre as perspectivas para produção de três cores de hidrogênio no país: o cinza, o azul e o turquesa.

Heloísa Esteves – Diretora da EPE

“O hidrogênio cinza já temos, é o mais eficiente em termos de custos e o mais competitivo. Ele traz a base tecnológica. Mas a partir do gás natural, a gente também avança no hidrogênio de baixo carbono que pode ser azul ou turquesa”, explicou Heloisa Esteves, diretora de Estudos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis da EPE – Empresa de Pesquisas Energéticas, para a Epbr.

As cores são nomenclaturas para referenciar as diferentes rotas de produção do combustível. 

Os estudos são uma colaboração com o governo britânico e devem contribuir com o desenho da Estratégia Nacional do Hidrogênio, prevista para o início deste ano.

hidrogênio cinza é produzido a partir da reforma a vapor do gás natural com emissão de carbono na atmosfera. 

Já o hidrogênio azul passa pelo mesmo processo, porém com a captura e o armazenamento do CO2 (CCS) emitido na reforma. 

Enquanto o hidrogênio turquesa é obtido a partir da pirólise do gás natural, gerando o carbono sólido, uma espécie de coque que pode ser reaproveitado em processos industriais.  

Rotas com gás natural ajudam a viabilizar hidrogênio

Diferente do hidrogênio verde —  a partir de eletrólise da água a partir de energia renovável  –, que ainda demanda uma curva tecnológica para viabilizar a redução de custos, os hidrogênios azul e turquesa, segundo os estudos da EPE, são mais competitivos. 

Heloísa Esteves explica que ambos podem ter rápida inserção no mercado, para atender a demanda por alternativas de baixo carbono, se comparados com o cinza. 

“Elas geram um energético flexível limpo a partir de um combustível fóssil que temos em abundância no Brasil”, diz.

Conta a favor do gás, então, as políticas e o desenvolvimento próprio do setor, que apesar da crise recente, vêm permitindo a entrada de novos agentes.

“Casando isso [a oferta de gás] com o Novo Mercado e com o setor mapeando o potencial da demanda, abrimos uma nova rota para a cadeia de gás natural desempenhar um papel na transição energética”, afirma Heloisa Borges. 

Preço do gás natural é fundamental

Os estudos da EPE estimam que o Brasil poderia produzir o hidrogênio cinza custando entre US$ 1 e 2 o quilo, enquanto o azul e turquesa azul poderiam chegar a US$ 2 a 2,60 o quilo, considerando o preço do gás natural em US$ 6,0 por milhão de BTU.

“Para a produção desses tipos de hidrogênio, a barreira é o custo do gás, a regulamentação dos mercados de carbono e a solução logística”, afirma Marcelo Alfradique, Superintendente Adjunto da EPE.

No caso do azul, o preço estimado leva em conta o abatimento com a comercialização de créditos de carbono provenientes da captura e armazenamento de CO2, o que demandaria um amadurecimento desse mercado e avanço em questões regulatórias. 

No fim de 2021, os preços do gás natural no Brasil, sem tarifa de transporte e no mercado cativo, ultrapassaram US$ 8 por MMBtu; para 2022, em muitos estados, o reajuste da Petrobras acabou judicializado. Questões de curto prazo.

Hidrogênio azul com captura de carbono offshore

A nota técnica da EPE trará, inclusive, um estudo de caso que levanta a possibilidade de instalação de plantas de produção de hidrogênio azul em plataformas offshore já existentes no pré-sal da Bacia de Santos.

Dessa forma, o CO2 emitido no processo seria capturado e injetado nos reservatórios, tal qual é feito hoje com o gás natural. 

“Estão sendo feitos estudos ainda para injeção de CO2, porque já temos a tecnologia pronta para injetar o gás natural nos reservatórios. É um gás mais ácido que o natural, mas estudos apontam essa possibilidade”, explica a analista Claudia Bonelli, que participou da elaboração da nota.  

Outro estudo de caso demonstrará a produção de hidrogênio azul onshore, em que o CO2 capturado seria transportado até a região pré-sal para injeção nos reservatórios. 

Cadeia de valor do hidrogênio turquesa 

Já no caso do hidrogênio turquesa, a projeção de custos da EPE também considerou a possível comercialização do carbono sólido, conhecido como negro de fumo, utilizado principalmente na fabricação de pneus.

Contudo, a nota aponta para a necessidade de ampliar o uso desse substrato na geração de carbono com alto valor agregado, como o grafite utilizado em baterias de lítio, para que de fato o preço desse hidrogênio se torne competitivo.

A EPE também cita estudos ao redor do mundo que comprovam a viabilidade de utilizar a estrutura de gás existente na distribuição e transporte do hidrogênio. 

Isso se daria por meio de uma mistura do hidrogênio ao gás natural, que poderia ser, em geral, de 10 a 20%, chegando até 30%, como vem sendo proposto na Alemanha e nos Países Baixos, por exemplo.

No Brasil, o Ceará também estuda a viabilidade do uso compartilhado de redes para distribuição do hidrogênio. O estado, por meio do Porto de Pecém — e de olho em uma demanda global — vem tentando atrair projetos, especialmente, de hidrogênio verde.

Fonte: Epbr – Diálogos da Transição