O Destino do Petróleo no Brasil em 2024 e o Potencial de Substituição por Fontes Renováveis

Com base nos dados consolidados de 2024, este artigo examina como o Brasil utiliza o petróleo que produz e importa, e avalia quanto desse volume poderia, no futuro, ser substituído por fontes de energia não fósseis como eletrificação e biocombustíveis. Essa é uma discussão, que as vezes ganha contornos políticos, mas iremos analisar estritamente pela ótica econômica e tecnológica.

1. Produção e Importação de Petróleo em 2024

Em 2024, o Brasil produziu em média cerca de 3,36 milhões de barris de petróleo por dia. Esse petróleo é, em sua maioria, de médio a alto peso (alta densidade) e baixo teor de enxofre, especialmente o oriundo do pré-sal. Além disso, o país importou aproximadamente 270 a 280 mil barris por dia, principalmente petróleo leve, utilizado para compor blends nas refinarias.

2. Exportação de Petróleo Cru

Mais da metade do petróleo produzido no Brasil em 2024 foi exportado — cerca de 1,75 milhão de barris por dia, ou 52% da produção nacional. O óleo brasileiro exportado é predominantemente leve e doce (baixo enxofre), sendo altamente valorizado por refinarias internacionais. Os principais destinos foram China (44%), EUA (14%) e Espanha (11%).

3. Consumo Interno e Refino

O volume de petróleo refinado no Brasil em 2024 foi de aproximadamente 1,9 milhão de barris por dia, destinado majoritariamente à produção de combustíveis (gasolina, diesel, querosene etc.). As refinarias operaram com alto fator de utilização, mas ainda assim o país importou parte dos derivados consumidos. A Tabela 1 a seguir, resume a destinação do petróleo no Brasil em 2024.

4. Lógica Econômica: Exportação vs. Refino Interno

Exportar petróleo cru e importar derivados refinados pode parecer contraditório, mas faz sentido econômico. A estrutura de refino nacional é limitada e o petróleo exportado tem alta qualidade, sendo mais valorizado lá fora. Ao mesmo tempo, o Brasil importa óleos mais leves para ajustar o blend das refinarias e atender à demanda interna por derivados leves.

5. Substituição por Fontes Não Fósseis

Cerca de 50% a 60% do petróleo consumido no Brasil poderia, até 2040, ser substituído por fontes não fósseis. Abaixo, apresentamos na Tabela 2, a distribuição do consumo de derivados em 2024 e suas possibilidades de substituição:

Conclusão

O Brasil combina uma posição de destaque como exportador de petróleo com desafios internos de refino e segurança energética, além de possuir a matriz energética mais limpa do mundo. Boa parte do petróleo consumido pode ser substituído por alternativas sustentáveis nos próximos 15 a 20 anos, mas isso exigirá políticas industriais, tecnológicas e ambientais consistentes.

O futuro da energia no Brasil depende do equilíbrio entre produção, industrialização e transição energética. Ver a Tabela 3 abaixo, com a “dinâmica” da transição ponderada por categoria e tempo estimado.

Não tem sentido, do ponto de vista geopolítico e estratégico, simplesmente abrir mão da produção de petróleo, da noite para o dia, e nem abdicar da nossa vocação de um país líder na Transição Energética.

Temos que fazer a “transição” de olho nos detalhes…que é aí que mora o perigo !

Fontes consultadas:

  • Dados consolidados de 2024 do Ineep/ANP sobre produção e exportação ( eixos.com.br , brasildefato.com.br );
  • Relatório anual da Petrobras (2024) sobre refino e derivados  e  api.mziq.com sobre a qualidade do petróleo;
  • Análises setoriais (Agência Brasil, Eixos, Brasil de Fato, O Globo) para qualidade do petróleo e comércio externo (conexoscloud.com.br );

Essas referências corroboram os valores e explicações acima, evidenciando o destino do petróleo brasileiro em 2024.

Desafios no Topo: Ameaças à Dominância Energética dos EUA

Por Tulio Chipoletti
Baseado no relatório publicado pela consultoria Wood Mackenzie – abril de 2025

Foi publicado pela consultoria Wood Mackenzie o artigo intitulado “Tough at the top: the threats to US energy dominance” que examina os pilares da dominância energética dos Estados Unidos e os desafios que podem comprometer sua continuidade nas próximas décadas. A seguir, apresentamos um resumo adaptado do conteúdo, mantendo a estrutura lógica, os gráficos e as principais análises desenvolvidas pelos autores.

A ascensão da dominância energética dos EUA

A produção norte-americana de petróleo e gás triplicou nos últimos 15 anos, respondendo hoje por 20% do fornecimento global de líquidos e 25% da produção mundial de gás natural. Isso consolidou os EUA como o maior produtor de hidrocarbonetos do mundo, superando a soma de Arábia Saudita e Rússia.

Figura 1 – Maiores produtores de petróleo e gás em 2025, em milhões de boe/d

Essa dominância transformou o país em ator-chave na segurança energética global:

  • Exportações de GNL mantêm o fornecimento para a Europa após a crise com a Rússia.
  • Volume recorde de petróleo blindou a economia americana contra choques de oferta.
  • Crescente influência dos EUA na Ásia por meio do comércio de GNL.

Fundamentos da performance upstream dos EUA

1. Redução contínua de custos

Os custos de breakeven caíram cerca de 65% desde 2005, com avanços em recuperação de recursos, logística e tecnologia. Atualmente, os valores estão abaixo de US$ 35/barril e US$ 2,50/mcf nos melhores ativos de petróleo e gas natural, respectivamente.

2. Flexibilidade de capital

O modelo americano permite ajuste rápido de investimentos diante de oscilações de preços, com retornos em menos de 12 meses em muitos casos. Habilidade de alterar o Capex – as vezes em poucos meses – em função das debilidades e fortalezas dos preços das comodites.

Figura 2 – Elasticidade do CAPEX onshore nos EUA vs. upstream global

3. Regime fiscal atrativo

O sistema tributário upstream nos EUA é dos mais favoráveis, permitindo que empresas retenham mais de 65% do valor presente líquido (NPV10) em projetos, mesmo com royalties elevados. Veja no grafico abaixo, a comparação com outros paises, principalmente o Brasil.

Figura 3 – Participação no valor dos projetos em países produtores selecionados

4. Consolidação e inovação

A consolidação nos últimos dois anos somou mais de US$ 100 bilhões em M&As, com grandes operadoras como ExxonMobil, Chevron e ConocoPhillips liderando. A troca de ativos impulsiona ganhos de eficiência.

Os mercados de negócios no último ciclo de consolidação a montante têm estado diretamente ligados à inovação e à concorrência. Os compradores têm adquirido ativos para implantar novas tecnologias e integração em escala.

Figura 4 – Participação dos EUA nos investimentos globais em M&A upstream

Desafios à continuidade da dominância

Apesar da liderança consolidada, o setor enfrenta riscos estruturais:

  • Barreiras comerciais, tarifas e possíveis impostos de carbono transfronteiriços podem reduzir a competitividade das exportações americanas.
  • O declínio natural da produção exige que os EUA adicionem volumes equivalentes à produção total da Noruega a cada ano, apenas para manter o nível atual.
  • O recurso que sustentou a escalada – o shale – está maduro e a produtividade por poço perfurado estagnou nos principais campos.
  • A nova política de dividendos fixos limita o reinvestimento mesmo com preços altos.
Figura 5 – Pico da produção upstream dos EUA projetado

O Dilema das Substituições

A Wood Mackenzie estima que, entre 2035 e 2040, os EUA perderão 1,7 milhão de boe/d em petróleo e gás, ao mesmo tempo em que sua produção de energia de baixo carbono deverá crescer em volume equivalente. No papel, isso sugere uma transição energética suave. Mas o cenário global revela outro problema: a China está liderando com folga a corrida por tecnologias limpas.

Enquanto os EUA seguem como uma petroeconomia, a China já se posiciona como uma eletroeconomia, dominando a cadeia global de baterias, veículos elétricos e energia solar. Essa vantagem deriva de planejamento estratégico e apoio estatal contínuo, que alavancaram a eletrificação do transporte e o desenvolvimento de energias limpas e nucleares.

Os EUA ainda lideram em volume de produção de hidrocarbonetos, mas a China lidera em produção em massa de tecnologias limpas com baixo custo, exportando para o mundo e moldando o novo mapa energético global.

Figura 6 – Participação global em energias renováveis em 2025

Ações para manter a liderança

Mesmo diante dos desafios, os EUA podem preservar sua posição no mercado energético global se mantiverem os fatores que os tornaram líderes no shale:

Inovação colaborativa

Grandes empresas como a ExxonMobil estão testando tecnologias avançadas, como modelos geológicos baseados em IA, para otimizar o design de poços e plataformas em tempo real. Isso pode reduzir custos e abrir acesso a reservas atualmente não econômicas.

Figura 7 – Redução projetada de custo por unidade em novos poços nos EUA

Novas frentes exploratórias

A exploração de novas formações geológicas, como as bacias Uinta, Utica e camadas profundas do Permiano, é essencial para renovar os estoques de poços economicamente viáveis.

Infraestrutura e incentivos fiscais

A estagnação na construção de gasodutos interestaduais representa um entrave à expansão. Reformas regulatórias e incentivos como aumento na dedutibilidade de custos e depreciação acelerada podem destravar novos projetos.

Figura 8 – Curva de exaustão dos inventários no Lower 48, sem novas descobertas

Reflexão Final

A posição dos EUA como principal fornecedor mundial de energia está sendo contestada por um mundo em transformação. A emergência de tecnologias limpas, lideradas por países como a China, exige dos EUA não apenas excelência no upstream, mas também capacidade de adaptação estratégica.

A dominância energética não está garantida: é preciso continuar inovando, investindo e diversificando. Como conclui a própria Wood Mackenzie: “é difícil chegar ao topo – e ainda mais difícil permanecer lá”.


Fonte: Wood Mackenzie, “Tough at the top: the threats to US energy dominance”, abril de 2025.

Uma década de desastres climáticos intensificados por fósseis e desmatamento

Na última década, os 10 piores desastres climáticos mataram cerca de 570 mil pessoas e eles foram intensificados pela emissão de gases de efeito estufa de atividades humanas como queima de petróleo, gás e carvão, além do desmatamento, concluem cientistas da World Weather Attribution (WWA).

Estudo publicado na última semana pelo grupo de pesquisa internacional analisou três ciclones tropicais no Indo-Pacífico, quatro ondas de calor na Europa, duas inundações (Índia e Mediterrâneo) e uma seca na África ocorridos desde 2004, para entender sua relação com o aumento da temperatura do planeta.

De acordo com a WWA, a seca em 2011 na Somália, que matou pelo menos 258 mil pessoas, foi intensificada pelo aquecimento causado pelas atividades econômicas, interrompendo padrões de chuvas e levando a temperaturas mais altas que aceleraram a evaporação da umidade do solo. 

Antes dela, em 2008, o ciclone Nargis havia deixado mais de 138 mil pessoas mortas no sul de Mianmar. E o estudo descobriu que a velocidade do vento foi 18% maior por causa da mudança do clima, que aumentou a temperatura dos oceanos.

Mais recentemente, a onda de calor europeia de 2023, que matou mais de 37 mil pessoas, também teve dedo humano.

Os pesquisadores calculam que alguns dos picos de temperatura na região do Mediterrâneo teriam sido impossíveis sem o aquecimento global e se tornaram 1.000 vezes mais prováveis ​​no sul da Europa.

“Sabemos que não existe desastre natural. É a vulnerabilidade e a exposição da população que transformam riscos meteorológicos em desastres humanitários. Cada vez mais, porém, há cada vez menos riscos meteorológicos que podem ser puramente descritos como ‘naturais’”, diz a WWA. 

“Nosso trabalho, juntamente com a literatura científica mais ampla, agora mostra que, com cada tonelada de carvão, petróleo e gás queimados, todas as ondas de calor ficam mais quentes, e a esmagadora maioria dos eventos de chuvas intensas, secas e ciclones tropicais ficam mais intensos”, completa.

Chuvas torrenciais na Espanha

De 29 a 30 de outubro de 2024, o leste da Espanha foi atingido por chuvas excepcionalmente fortes, que provocaram inundações e mataram mais de 200 pessoas.

A enchente também deixou centenas de milhares de pessoas sem água potável e eletricidade na região de Valencia.

Foi o maior número de vidas perdidas por causa de uma inundação na Europa desde 1967.

Segundo a análise da WWA, a partir de valores diários de precipitação, há indícios de que eventos de chuva intensa de um único dia, tão intensos quanto o observado, são cerca de 12% mais intensos e cerca de duas vezes mais prováveis ​​no clima atual, ou seja, 1,3 °C mais quente do que seria no clima pré-industrial.

Eles observam, no entanto, que muitos dados oficiais estão desatualizados, o que impede uma avaliação mais aprofundada.

Além disso, no caso espanhol, um outro fator humano que contribuiu para o desastre foi a demora em emitir alertas para prevenir a população.

Esta semana que tem COP29

Nesta semana, começa em Baku, capital do Azerbaijão a tão aguardada COP29, conferência sobre mudanças climáticas das Nações Unidas que terá como missão destravar recursos financeiros para a transição energética global.

Tão aguardada porque dinheiro é ponto central: são os investimentos que definem se vamos seguir em uma economia fóssil ou vamos em direção às renováveis. E sem dinheiro, países que já precisam lidar com questões sociais desafiadoras, dificilmente conseguirão acompanhar as nações mais abastadas.

Mas essa COP ocorre em meio a um cenário pouco animador. Guerras na Ucrânia e na região do Oriente Médio adicionam obstáculos a negociações historicamente complexas. 

Some-se a isso, a recente eleição de Trump nos EUA, que embora só assuma a presidência em janeiro de 2025, já desanima diplomatas. Afinal, o que for decidido nas próximas semanas pode ser desfeito em alguns meses. Vale lembrar a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris em 2020.

E ainda: na ultima sexta (8/11) uma gravação secreta mostrou o presidente-executivo da equipe da COP29, Elnur Soltanov, discutindo “oportunidades de investimento” na empresa estatal de petróleo e gás com um homem se passando por um potencial investidor – usando o cargo na conferência para discutir possíveis acordos sobre combustíveis fósseis, segundo a BBC.

Isso tudo embalado em previsões cada vez mais alarmantes: 2024 caminha para ser o ano mais quente da história (depois de 2023 ter quebrado o recorde), segundo a Organização Meteorológica Mundial (WMO, em inglês). 

E sem perspectivas de quando a temperatura irá baixar, já que as políticas atuais levam a cenários de 2,6°C a 3,1°C.

Creditos: Dialogos da Transição – Editada por Nayara Machado